segunda-feira, 14 de agosto de 2017

ESTE TEMPO QUE FOI

jamais soube de todas as ciladas
os sorrisos mal soletrados
as cores das gargalhadas escondidas

eu não soube desse tempo feliz
iluminando a metade dos dias
o vento nascente
que transportava alvoradas
e a nitidez das linha da palma da mão

nesse tempo que foi
havia crepúsculos sem fim.

no esconderijo da folha escrita
onde me acoito
não desisto da luz dos meus próprios dias.

hoje
como me perdoar a ingénua imagem
desse tempo antes do tempo?

segunda-feira, 28 de março de 2016

UM SMS LÁ PARA CIMA (inédito)



                          
            
                                    UM SMS LÁ PARA CIMA

                                há coisa de dois meses enviei  a Deus este  SMS:
     
               LUVE, TMUS D FLAR ;)
         OD TÁS? NO XEU? 
         TOU PROKUD PRA CRAXAS
         PRCISO FLAR CONTGU
         SBES OD ME ENCNTRAR
         SMPRE NO MMO SITIO OD TOU AGRA
         TENHO SAUDDES TUAS:)
         BJS ¨ 

              Nunca recebi resposta que entretanto mudei de operadora
              Ninguém avisou DEUS  da mudança, foi o que foi.

terça-feira, 15 de março de 2016

OFÍCIO (inédito)

                                      OFÍCIO


Virar pedras, descobrir versos
e
não achar nada.

Este é o meu trabalho
para tocar a poesia,
exalada pelo bafo divino das musas 
ocultas no chão do Parnaso.

Às vezes
dou com Deus em ruínas,
acocorado sob um chão de calhaus,
temendo os desaforados apelos
que Lhe perturbam a limpidez
dos dias da Criação.

                          Ele não me deslumbra.
                          Difícil mesmo é ser poeta.

LEVANTAR UM POEMA (inédito)









sem que alguma vez
um Deus sabedor me tivesse dado
uma imperecível e leve mão,
ou indicado o caminho anguloso dos poliedros,
atiro-me às sensíveis tábuas de insolúvel madeira,
aos anéis em ferro temperado,
e passo tudo pelo fogo alquimista.
                                                        q.b.

sou isto:
um tanoeiro de versos
a levantar um poema
como o artesão a compor uma vasilha.

O HOMICÍDIO DAS MÃES (inédito)





                                  enquanto espero que surjas
                 com tuas mãos à descoberta de mim,
                 o meu olhar ilíquido trespassa do rio
                 a neblina,
                 nas águas amargas do Lima.

                         imóveis nos seus dóris,
                  é de pontiagudas fisgas acesas
                   que os corsários aguardam
                   a passagem das ofegantes lampreias,
                   prenhes de futuro e destino  por  fazer                              
                    e eu faço figas rigorosas
                    para o sucesso do fracasso
                    que há-de inscrever-se
                    na abordagem da pirataria.

                                continuo por aqui, nesta margem,
                    como se obedecesse a um dever primordial
                    (não há-de ser debalde a minha fé)
                     enquanto não chegas de sapatilhas apressadas.

                                         na armadilha do rio,
                                          o homicídio das mães.
                    
                    
                

sexta-feira, 11 de março de 2016

PERTO DO CORAÇÃO NAUFRAGADO (inédito)



                     PERTO DO CORAÇÃO NAUFRAGADO
                                   ( no dia internacional da mulher e dedicado à Virgínia Woolf)



                  Esperou que marido e filho acabassem de  comer. Naquele dia tinha-se esmerado na preparação de um jantar festivo, consumira um bom par de horas, num rodopio labiríntico entre o forno, a varinha mágica e o liquidificador. Metera até uma falta no escritório para que a confecção do jantar tivesse o deslumbramento dos deuses. Aquele dia era também o seu dia.
               Vi-os depois levantarem-se da mesa, o bolo comemorativo ainda mastigado à pressa, o filho direito ao quarto onde se embrenharia na atracção do portátil e o marido a preparar-se para ir até ao café. Nessa noite jogava a sua equipe de futebol e ele juntava-se ritualmente aos seus camaradas clubísticos numa exaltação de circo romano.
                   Sozinha, deitou os restos de comida no lixo - o que não era seu hábito, sempre cuidadosa nas poupanças -lavou a  loiça, e sentou-se à mesa a fumar um cigarro. Um silêncio fúnebre envolveu-a e sentiu de novo aquele gélido arrepio de perturbação que há uns tempos lhe vinha mordendo o pensamento: "Que estava a fazer naquele lar?".
                  Já no quarto preparou uma pequena mala com a roupa essencial e produtos de higiene, e desandou porta fora sem olhar para trás ou sem um mínimo de remorso. Meteu-se num táxi que a deixou no outro lado na cidade num hotel de circunstância e medíocre,  disfarçada com uns óculos escuros e o cabelo para os olhos. 
           Sentou-se na cama sem nunca despir a roupa que usava, lendo "Mrs. Dalloway" de Virginia Woolf. Dias depois, tendo chegado ao fim da imperiosa leitura, partiu de comboio para Espanha, atravessou os Pirenéus e Mancha só parou em Inglaterra.  
Só voltou ao lar trinta anos depois, quando soube que o seu único filho iria morrer de sida.



terça-feira, 1 de março de 2016

A PALAVRA INAUGURADA (inédito)







                                           A PALAVRA INAUGURADA


este deixou de ser o tempo da palavra.
denegriram-na os alquimistas da fala
com os seus discursos de estrelas liquefeitas.
traída a palavra nas bocas donde se soltam varejeiras
de azulado dorso, abro a tampa do poço
onde guardo os meus berlindes
e deixo a memória inaugurar a linguagem dos pássaros.